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O texto abaixo nos foi
enviado por Sérgio Mattos Guerra, leitor de O Eremita, logo após o
acidente com o avião da TAM, em julho deste ano de 2007. É a visão do
Filosofo diante da tragédia, na busca de uma explicação transcendental que
console e dê ensinamentos.
Filosofar
é Preciso
Sergio
Mattos Guerra
É comum
ouvirmos hoje em dia que não há mais necessidade de filosofar. "A
Filosofia hoje é nada", brincou uma dramaturga brasileira na década de
90. Os arautos dessa modernidade afirmam que o importante é realizar-se,
divertir-se, viver momentos alegres com familiares e amigos, viver plenamente o
hoje, ser feliz. Quando se permitem filosofar, refugiam-se em alguma religião
que lhes apresenta um menu de respostas prontas para todas as magnas perguntas
da vida. Criam um "Deus" antropomórfico a quem julgam conhecer e com
quem estabelecem pactos que lhes darão uma vida segura e feliz aqui na terra e
um pós-morte de imortal júbilo.
Mas quando somos atingidos por uma tragédia como este último desastre do vôo
da TAM, todas as nossas frágeis noções do que é ser feliz se estilhaçam na
furiosa explosão dos acontecimentos. O nosso ente querido, que até ontem vivia
feliz e seguro de que nada de mal iria lhe acontecer (já que as tragédias só
acontecem com os outros e com os entes queridos dos outros) encontra-se hoje
morto, carbonizado, irreconhecível, extinto, silencioso e ausente. A nossa
rotina corriqueira e banal é repentinamente mergulhada em desespero e estupor.
Por mais que tenhamos sido felizes até ontem, hoje esta felicidade roubada já
não vale mais nada. Não nos conforta. Pelo contrário: quanto mais doce tenha
sido nosso ontem de alegria e aconchego, mais cortante e amarga é nossa miséria
depois do episódio trágico ("Em
toda a adversidade do destino, a condição que gera mais infelicidade é o fato
de se ter sido feliz ").
A religião também empalidece e os religiosos se dividem: os que tiveram seus
entes queridos salvos da catástrofe rejubilam-se e, em arroubos de cegueira egoísta,
louvam a Deus por ter sido tão bondoso com eles. Os que perderam seus amados
gritam e revoltam-se contra os humanos que possam ter causado a tragédia, numa
busca frenética por culpados. Não se vê nenhum deles agradecer a Deus pelo
ocorrido, embora a Bíblia afirme que em tudo deve-se dar graças a Deus. Em
outras palavras, tornam-se ateus, apesar dos habituais clichês religiosos que
todos dizem nessas horas: "Foi a vontade de Deus", "não chore,
ela está num lugar melhor", "um dia iremos nos reencontrar".
É numa hora como essas que brilha um fato tão antigo mas tão atual: a
filosofia não morreu. E nunca morrerá. Simplesmente porque o homem nasceu para
filosofar. Ele tem a necessidade de se exercitar constantemente na arte de fazer
as perguntas máximas da existência: "Quem sou eu?", "de onde
vim e para onde vou?", "o que posso conhecer e o que devo fazer para
conhecer?", "existe algo imortal em mim que não seja destruído pela
morte?", "o que é o tempo?", "o que é real e o que não
passa de ilusão?", "o que é a felicidade e como a poderei
encontrar?", "há um Deus?", "é possível conhecê-lo?",
"por que eu sou como sou e as coisas são como são?", "o que é
possível mudar e o que tenho que aceitar?". O ato e o hábito de fazer
estas perguntas é mais que simplesmente uma inclinação humana: é nossa vocação.
O exercício dessas indagações desenvolve os poderosos "músculos"
do discernimento, e ao longo de muitos anos de prática, pode conferir a grande
jóia da existência humana: a SABEDORIA. A sabedoria não virá do estudo de
livros e escrituras, nem da aceitação de dogmas religiosos, mas da profunda
observação da vida aliada ao lento e paciente exercício de filosofar. Só a
sabedoria, cultivada com humildade e paixão, será capaz de nos confortar de
dentro do nosso peito. Só ela nos armará para vencer qualquer embate da vida e
nos fará olhar para eles com serenidade e desapego. Só a sabedoria nos impedirá
de enlouquecer se tudo o que tivermos for tirado de nós. Porque a sabedoria é,
ela mesma, a única coisa nossa que não poderá ser tirada de nós. E não será
isso a verdadeira e única felicidade? Todavia, poucas pessoas estão
interessadas em buscar a sabedoria.
Muitos filósofos nos ensinaram isso com suas próprias vidas e, principalmente,
com suas mortes. Mas o primeiro que me vem à cabeça é Boécio (Anicius
Manlius Torquatus Severinus Boetius -- Roma, c.475/480 - Ticino, 524). Como
filósofo platônico, estadista e teólogo romano, Boécio foi o último
pensador latino a compreender o grego, sendo, portanto, a única fonte européia
sobre esses textos digna de crédito, em sua época. Traduziu o Organon,
de Aristóteles, e resumiu vários tratados sobre matemática, lógica e
teologia. Sob o reinado de Teodorico, foi investido em altas funções
administrativas, foi cônsul e magister palatii. Dando crédito a uma
intriga política, o rei mandou executá-lo cruelmente em Pavia, em 525, depois
de privá-lo do seu lar, suas propriedades e seus familiares, submetendo-o a uma
longa prisão e muitas sessões de tortura.Foi na prisão que Boécio escreveu De
Consolatione Philosophiae (
A Consolação da Filosofia) pouco antes de ser
brutalmente executado. Nessa
obra-prima da literatura e do pensamento europeu, Boécio coloca-se na condição
de um doente, por estar se perguntando de que lhe valeram tantos anos de
filosofia e de princípios, se sua vida terminava como a de um malfeitor comum,
sem conforto, sem afeto, sem integridade física. Então, no auge do seu
devaneio ele tem uma visão de que a própria Filosofia, personificada em uma
Dama de imortal encanto, vem até ele em sua cela e com ele dialoga sobre as
palpitantes questões que o inquietam. Todo esse sublime diálogo ele relata em A
Consolação da Filosofia , onde vêm à baila os problemas do
mundo, de Deus, da felicidade, da Providência, do destino, do livre arbítrio
e, sobretudo, a questão do mal e da justiça divina. A Senhora Divina leva-o a
compreender que, mesmo tendo perdido tudo e sofrendo dores atrozes, ele ainda
pode e deve ser feliz, pois a verdadeira felicidade não pode ser roubada ou
confiscada de nós por nada nem ninguém. Ao final do poético diálogo, o filósofo
não mais se encontra perplexo ou perdido. Ele está preparado para viver e
morrer, tendo compreendido plenamente seu destino, abraçando sua sorte como um
precioso tesouro. Este pequeno livro influenciou profundamente as maiores
personalidades do pensamento e da arte européia, como Chaucer e Dante.
É verdade que pouco se fala da filosofia na rotina corriqueira dos homens e
mulheres de hoje em dia. Como afirmou Bertrand Russell, o consultório da psicanálise
é um dos últimos redutos onde ainda se pratica a maiêutica de Sócrates. Mas
as pessoas ainda se assustam com a psicanálise, taxando-a de tratamento para
loucos, e preferem entregar suas mentes e seu dinheiro aos pastores de suas
igrejas ou aos gurus da auto-ajuda, ignorando que não existe outra salvação
ou auto-ajuda possível senão fazer um longo e profundo mergulho em si mesmo.
Que bom seria se filosofássemos mais. Que diminuíssemos um pouco o contato com
a realidade para aumentar a análise desse contato, nas palavras de Fernando
Pessoa no seu Livro do Desassossego. Que
nos divertíssemos e ríssemos e desfrutássemos do convívio dos nossos amados
sim, mas que buscássemos com igual empenho um pouco de solidão para
compreender mais a natureza, o universo, nossas sensações, nossas emoções,
nossas potencialidades, nosso EU. Filosofando, tornamo-nos mais fortes, mais políticos,
mais atuantes,mais felizes, mais espitiruais. Quem sabe assim, se um dia o
Destino nos tirar aquilo que mais adoramos, em nossa hora mais escura a
Majestosa Senhora Filosofia se digne vir ter conosco na restrita cela do nosso
desespero, remova as ilusões dos nossos olhos e, consolando-nos e sorrindo, nos
diga: "Você é feliz!"
CRÉDITOS:
(O texto acima nos foi enviado pelo próprio Sérgio Mattos Guerra -
serguerra@gmail.com)
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